Domingo, Março 15, 2009

António Botto morreu há 50 anos



António Botto foi, de entre os poetas da sua geração, aquele que recebeu mais rasgados elogios por parte de Fernando Pessoa, tornando-se mesmo uma espécie de protegido dele. (Depois da morte de Pessoa, Botto escreve um dos poemas mais sentidos sobre o mestre: o poema de cinza).

Sobre Botto Pessoa escreve artigos, defende-o da censura e publica mesmo os seus livros nos momentos em que o próprio Pessoa teve uma editora. Não sabemos ao certo de onde viria esta admiração, mas sabemos que Botto, abertamente homosexual, provavelmente representaria na vida real o espírito aberto e sem tabus que Pessoa provavelmente apenas sonharia poder ser.

Que Botto se tinha tornado mais um heterónimo de Pessoa não é ideia minha. Foi Jorge de Sena que o disse. E é em Jorge de Sena que encontramos também algumas singelas ponderações sobre um possível envolvimento sentimental entre Pessoa e Botto. Cito as palavras de Sena em "Fernando Pessoa e Cª Heterónima", nota 12, págs. 359-60:

"Ao que se conta, Botto apenas teria, com meias palavras, e alguma vez, referido duas coisas acerca do Pessoa sexual: que ele olhava, notem, de certa maneira para os rapazinhos; e que o seu membro viril, muito pequenino, explicava a abstinência envergonhada dele (como é que ele sabia?)."


Sena diz, e isso é verdade, que Botto teria de ter visto Pessoa nú para saber estes pormenores embaraçosos. E quem sabe, talvez o tenha mesmo visto nú... e Pessoa tenha transposto a sua admiração para um nível de platónica protecção relativa a um Botto ameaçado pelo pudor da sociedade.

Sabemos através do próprio Pessoa que a sua abstinência teria também a ver com o facto de precisar de ser circuncidado. Sofreria muito provalvelmente de uma condição médica chamada fimose, em que a glande não consegue ser libertada, causando dores nas relações sexuais. Não sabemos se Pessoa alguma vez corrigiu esta situação, mas sabemos do seu diário que a sua viagem planeada a Inglaterra não teria sentido para ele, sem que tal ocorresse.

Botto junta-se, quanto a nós, a uma galeria de possíveis amores Pessoanos, que inclui ainda Ophélia, a misteriosa vizinha da Rua Coelho da Rocha, Hanni Jaeger, uma outra mulher casada (com um dos seus amigos) e quem sabe mesmo Sá-Carneiro (se bem que este puramente platónico).