António Botto morreu há 50 anos
António Botto foi, de entre os poetas da sua geração, aquele que recebeu mais rasgados elogios por parte de Fernando Pessoa, tornando-se mesmo uma espécie de protegido dele. (Depois da morte de Pessoa, Botto escreve um dos poemas mais sentidos sobre o mestre: o poema de cinza).
Sobre Botto Pessoa escreve artigos, defende-o da censura e publica mesmo os seus livros nos momentos em que o próprio Pessoa teve uma editora. Não sabemos ao certo de onde viria esta admiração, mas sabemos que Botto, abertamente homosexual, provavelmente representaria na vida real o espírito aberto e sem tabus que Pessoa provavelmente apenas sonharia poder ser.
Que Botto se tinha tornado mais um heterónimo de Pessoa não é ideia minha. Foi Jorge de Sena que o disse. E é em Jorge de Sena que encontramos também algumas singelas ponderações sobre um possível envolvimento sentimental entre Pessoa e Botto. Cito as palavras de Sena em "Fernando Pessoa e Cª Heterónima", nota 12, págs. 359-60:
"Ao que se conta, Botto apenas teria, com meias palavras, e alguma vez, referido duas coisas acerca do Pessoa sexual: que ele olhava, notem, de certa maneira para os rapazinhos; e que o seu membro viril, muito pequenino, explicava a abstinência envergonhada dele (como é que ele sabia?)."
Sena diz, e isso é verdade, que Botto teria de ter visto Pessoa nú para saber estes pormenores embaraçosos. E quem sabe, talvez o tenha mesmo visto nú... e Pessoa tenha transposto a sua admiração para um nível de platónica protecção relativa a um Botto ameaçado pelo pudor da sociedade.
Sabemos através do próprio Pessoa que a sua abstinência teria também a ver com o facto de precisar de ser circuncidado. Sofreria muito provalvelmente de uma condição médica chamada fimose, em que a glande não consegue ser libertada, causando dores nas relações sexuais. Não sabemos se Pessoa alguma vez corrigiu esta situação, mas sabemos do seu diário que a sua viagem planeada a Inglaterra não teria sentido para ele, sem que tal ocorresse.
Botto junta-se, quanto a nós, a uma galeria de possíveis amores Pessoanos, que inclui ainda Ophélia, a misteriosa vizinha da Rua Coelho da Rocha, Hanni Jaeger, uma outra mulher casada (com um dos seus amigos) e quem sabe mesmo Sá-Carneiro (se bem que este puramente platónico).

