Uma crítica do "Livro do Desassossego" (edição Relógio d'Água)

A editora Relógio d'Água editou recentemente uma nova edição do Livro do Desassossego, a cargo da insígne pessoana Teresa Sobral Cunha (co-responsável pela edição original do Livro, em 1982 com Jacinto do Prado Coelho e Maria Aliete Galhoz).
Trata-se de uma "continuação" de uma edição de 1997 que ficou interrompida em 2005 por uma questão legal de direitos de autor. Os herdeiros de Pessoa venderam os mesmos à Assírio & Alvim, que começou então a publicar as obras do poeta em regime de exclusividade (e tendo Richard Zenith como principal responsável). Em 1997 Teresa Sobral Cunha tinha editado um "Livro do Desassosego I", apenas com os textos atribuídos a Vicente Guedes, e estava planeado um "Livro do Desassossego II", com os textos de Bernardo Soares.
Devo dizer que esse livro foi marcante na minha leitura de Pessoa. Da minha biblioteca é dos poucos livros que posso apelidar de verdadeira peça artística de literatura - vale não só pelo conteúdo mas pela beleza que transmite a sua cuidada edição. Ou seja, é daqueles livros que ao pegarmos nos transmite uma certa emoção que não conseguimos definir. Penso que Teresa Sobral Cunha conseguiu atingir o espírito do Livro de uma maneira que mais nenhuma outra edição conseguiu.

Durante alguns anos fiquei - como julgo que ficaram todos os que compraram o volume - à espera da segunda parte do mesmo. Mas o mesmo não apareceu pelas questões que já mencionámos. Apareceu a edição da Assirio, que de certa forma se transformou na "edição comum" da obra, a que circula agora com plena divulgação. O que, quanto a mim, é uma grande pena.
Não pretendo diminuir o trabalho de Zenith, embora Teresa Sobral Cunha o ataque frontalmente por uma suposta falta de ética profissional ao aproveitar-se do trabalho anterior da autora sem sequer o citar. O que lamento profundamente é sobretudo a atitude actual da Assírio, que ameaçou a Relógio d'Água com um processo judicial se a mesma continuasse o seu projecto de 1997...
Parece claro que a Assírio temia a valia desse mesmo projecto. E isso é comercialmente compreensível. Mas como obra de edição, o Livro da Assírio é bem mais pobre. O Livro de 1997 da Relógio d'Água, mesmo incompleto, surge como edição muito mais apetecível para um leitor avisado.
Estas "peripécias", obrigaram Teresa Sobral Cunha a repensar a edição. Como não podia continuar o seu trabalho inicial, reuniu os 2 livros (de Vicente Guedes e Bernardo Soares), num só grande volume. O resultado? Infelizmente mais pobre do que o projecto inicial.
Realmente o que marca a diferença entre as várias edições? Juntando a nossa opinião, valemo-nos agora também do texto publicado na Colóquio Letras, por Sidónio Paes para tentar elucidar esta questão:
Zenith "joga", por assim dizer, um jogo subservivo - se bem que mais fácil - que é o de deixar ao leitor a organização do Livro. Zenith assume o caos fragmentário, e chega mesmo a desafiar o leitor a fazer o "cut & paste" que ele ache melhor. O Livro de Zenith lê-se como se leria um blog, ou até a Biblía: basta abrir numa página e noutra e noutra, cortar e colar, fazer a própria auto-edição.
A facilidade extende-se à escolha de um autor único: Bernardo Soares. Esta era afinal a última intenção de Pessoa. No entanto ignora que Pessoa queria fazer isso só depois de editar todos os textos e fazer uma escolha dos mesmos - coisa que nunca fez. Zenith defende-se de maneira fraca dizendo que se Pessoa não fez é porque aceitou a autoria de todos os textos como sendo de Soares (algo que falta à verdade dos factos - que Pessoa morreu antes de editar a sua obra convenientemente).
Teresa Sobral Cunha, por seu lado, faz um trabalho que divide e maximiza o que poderá ser o Livro, fugindo a uma versão simplificada do Livro, que parece ter sido a que o autor americano buscou (talvez mais próxima também à sua personalidade pragmática).
Claro que são opções. Certo é que ambas as edições (a de 2008 da Relógio d'Água e a da Assírio) permanecem para públicos diferentes, embora sejam ambas acessíveis. A de Teresa Sobral Cunha pretende ser um cânone o mais completo possível, a de Zenith uma edição comum, de fácil acesso, sem complicações.
Mas, por via da ameaça legal, Teresa Sobral Cunha, viu-se forçada de certa maneira a seguir a forma da edição da Assírio, o que - se bem que não prejudica o conteúdo - prejudica sobremaneira a leitura. O volume tornou-se demasiado vasto, demasiado único. Perdeu a singularidade e ganhou pormenores perniciosos: a qualidade do papel não é a mesma, as notas passaram do rodapé para o final do livro, etc...
O intervalo 1997-2008 foi, vê-se agora, um "intervalo doloroso", que nada trouxe de positivo, a não ser claro a adição de muitos inéditos que agora vamos processando lentamente. O leitor ficou a perder, perdeu o volume II (quem sabe para sempre), e ficou a perder Pessoa.
